Com 26 anos de profissão, Paulo Ricardo, diretor artístico da Mix-Use, é dono de dois salões e uma escola de cabeleireiros em Londrina, no Paraná. O hairstylist, que cria todas as coleções da marca e comanda eventos de formação profissional em todo o Brasil, revela nesta entrevista como é seu processo de trabalho e suas apostas para a temporada. BE FASHION – Pela sua experiência em cursos com os principais mestres da coiffure, pode-se dizer que você desenvolveu um método próprio de educação profissional. Quais são seus diferenciais em relação aos outros modelos de formação existentes no mercado brasileiro?
Paulo Ricardo – Sou filho e neto de barbeiros e sempre convivi em um ambiente onde se falava muito de beleza. Vivi uma época em que os profissionais no Brasil passavam por uma fusão entre institutos de beleza, só para mulheres, e barbearias, só para homens, surgindo assim o salão unissex. Quando criança, estive presente em quase todos os campeonatos nacionais e internacionais sediados por aqui e, adolescente, desfilava como modelo. Essa proximidade levoume a admirar a criatividade dos profissionais e acabei por interessar-me pela carreira entre os 14 e 15 anos. Comecei em uma escola comandada por japoneses, que priorizavam penteados com enchimentos, decorados com enrolamentos de bobes. Depois de formado, tive a chance de trabalhar por quatro anos em um conceituado salão masculino, o Presidente, em Londrina. Vários profissionais ensinaram-me técnicas de uso da navalha, do desfiador e de acabamentos dos cabelos curtos. Tudo isso, somado a especializações feitas em vários países, proporcionaram-me bastante versatilidade.
BF – Fala-se muito da criatividade do brasileiro, seja de que área for. Que habilidades você destacaria em nossos hairstylists que não são encontradas em profissionais de outros países? Você pode dar exemplos dessas habilidades?
PR – Os profissionais brasileiros costumam destacar- se em outros países justamente porque, de certa forma, atendem pessoas de todas as raças em seu salão. O que quero dizer é que por nossas cadeiras passam, diariamente, cabelos de origem européia, africana, asiática e latina. Então, pergunto: quem no mundo passa por esse laboratório técnico? Por isso, o brasileiro precisa ser criativo para poder vencer. Criar novas técnicas, como reduzir o volume dos afros, criar volumes nos finíssimos fios europeus, proporcionar leveza e movimento no espesso e pesado cabelo asiático.
BF – Quais são as aptidões que um cabeleireiro deve ter e desenvolver para se tornar um nome respeitado no mercado?
PR – Um bom profissional precisa desenvolver quatro habilidades: ser visagista, criativo, técnico e excelente atendente. Mas não pode esquecer quem realmente é a estrela no salão: o cliente. Atraí-lo é o primeiro passo para o sucesso. Uma clientela fiel só é conquistada através de um atendimento diferenciado. E, ao contrário do que muita gente acredita, o atendimento não acaba com o fim do serviço. É imprescindível perceber e conhecer o nível de expectativa dos clientes, a fim de fazer exatamente o que eles querem e não somente o que o salão se propõe a oferecer. Na questão do visagismo, o cabeleireiro deve adaptar as tendências ao estilo de cada cliente. Essa atitude vai determinar um relacionamento diferenciado e um atendimento personalizado.
BF – Você idealiza e executa todas as coleções da Mix-Use. Como é esse processo de criação?
PR – Primeiro, fazemos uma análise do que lançam as grifes de luxo, como Gucci, Chanel, Dior, Louis Vuitton, Fendi, entre outras. O estudo prossegue com a observação dos trabalhos de vanguardistas descobertos pela Associação Internacional de Imprensa Profissional (AIPP). As coleções de grandes hairstylists e instituições precursoras de moda em cabelo na Alemanha, França e Inglaterra também são referenciais importantes. Costumes e conceitos diferentes de beleza de país para país influenciam a criação das tendências. Mas, aqui no Brasil, temos de adaptar tudo. Cabelos lisos e encaracolados, finos e muito grossos, pesados e estáticos, eriçados. Nossas escolhas de cores, cortes e penteados vão nessa direção, porque nossa moda respeita as diferenças e propõe um conceito, e não um padrão a ser totalmente copiado.
BF – Em sua opinião, o que vai pegar em matéria de corte e cor neste inverno?
PR – Nuances naturais de fundos escuros e técnicas que clareiam o meio e as pontas suavemente, fazendo um degradê, tendem a predominar na próxima estação. Cortes médios e o médio-curto ganham espaço em meio à profusão de cabelos longos. E os penteados são mais elaborados antes, para serem mais soltos e displicentes depois, especialmente nos acabamentos. Voltam também os looks ondulados e lisos com mais movimento. Foi esse caminho que nossa coleção de inverno trilhou. Jóias no Espaço aposta no jogo de luz e sombra para criar cores que lembram a visão dos astros sob a luz solar. Diferentes nuances, cortes e penteados para homens e mulheres fazem referência aos três grupos de planetas: os gelados Urano e Netuno, os nebulosos Saturno e Júpiter e os telúricos Terra e Mercúrio.

